02 setembro 2010

A aldeia dos gauleses*

(Contributo para a História de uma Aldeia)


GRAVIS MALAE CONSCIENTIAE LUX **
[Séneca, Epistulae Morales 122.14]


Era uma vez uma pequena aldeia situada a Norte da zona Sul e encravada entre o Oriente e o Ocidente do ponto onde ficava.
Rodeada de Romanos por todos os lados que tinham resolvido invadi-la e fazer dela uma ilha deserta (salvo seja).
Só que a tarefa estava a ser dificultada pelos corajosos guerreiros gauleses que não se deixavam vencer e defendiam a sua pequena aldeia como verdadeiros bravos.

Diga-se que a aldeia havia sido fundada pela carolice de meia dúzia de habitantes do Império que, fartos de ser espoliados nos seus direitos laborais, corporizaram o sonho de criar uma aldeia independente e que lutasse afincadamente por esses mesmos direitos. Liderados por um grupo de fundadores donde sobressaíam Bracarix e Belarminix coadjuvados pelo carregador do menir, Abelix.

Enquanto Bracarix foi o líder incontestado a aldeia prosperou, conseguiu promover a imigração, não passou por quaisquer problemas orçamentais e nem teve necessidade de quaisquer PEC’s. E, acima de tudo, era respeitada pelos seus arqui-inimigos.

Mas surge então um candidato a destronar Bracarix e a pureza inicial do projecto da aldeia, sucedendo a Abelix que num momento pior da vida pessoal de Bracarix o havia substituído interinamente na presidência da aldeia.

Tratou de mudar a aldeia para Sul da zona Norte e decide, de per si, construir um palácio presidencial à sua imagem e para seu gáudio exclusivo.

O “umbiguismo visceral” de Mobutix Caudilhix Dementix Paranoidix de Grandix Bostix , de seu nome completo, provindo do clã ancestral dos DITADORIX , foi, paulatinamente, degradando o ambiente na aldeia, degladiando o seu património, adquirindo bens sumptuosos para ornamentar o seu ego e para alimentar caprichos ilegítimos que passavam até por pagar “dívidas alheias” com fundos colectivos da aldeia.
Perante algumas objecções de Bracarix que se tinha tornado, entretanto, Ministro das Finanças da aldeia, o “grande líder” Mobutix apelidava-o de “esclerozado”, “senil” e outros epítetos semelhantes e nada abonatórios.

Entretanto, Paranoidix faz-se assessorar pelo inevitável Abelix, que lá foi carregando o menir e que nem se deu mal com o Dementix enquanto as suas opiniões “operacionais” eram quase em absoluto coincidentes com as do Caudilhix. Chegaram, julgava Abelix na sua boa-fé, a ser amigos.

Mas, um belo dia, alguns anos após uma assembleia de aldeia em que um texto emanado do órgão presidido por Bracarix levantava algumas objecções ao rumo financeiro algo obscuro que a aldeia havia encetado (e que por vir assinado pelo “Conselhix Fiscalix”, Mobutix nem sonhou ter sido redigido por Abelix…) – um belo dia, dizia eu, Abelix, farto de assistir passivamente a uma política financeira que envergonharia (por deles revelar a ingenuidade) até os ancestrais membros do clã Ditadorix (e onde até as peças de ferramenta que Bostix adquiriu para “formatar” o palácio, pagas pelos aldeões e que como tal deveriam ser colectivas, acabam na sua mala pessoal), resolveu, ainda que de forma discreta, afrontar o Caudilhix com uma carta PESSOAL E CONFIDENCIAL que lhe dirigiu onde lhe exprimia a sua preocupação com o rumo financeiro da aldeia.

A verdadeira natureza de pessoa mal formada que, na realidade Dementix ostentava ainda que, aqui e ali, a soubesse ofuscar com algum “jogo de cintura” teatralizado, veio ao de cima. Numa atitude própria apenas da “rasquice” que o caracteriza, resolve tornar público o conteúdo dessa carta, após o decurso de alguns meses que precisou para “cozinhar” uma resposta que, de tão aviltante e bacoca, só a si mesmo degradou, sem, entretanto, ter a coragem sequer de interpelar o portador do menir. Mas, sabemos que a coragem é um apanágio exclusivo dos Grandes. E Grandix Bostix nem médio era e persiste em diminuir!

Quando, posteriormente, o “senil” Bracarix se reformou, Mobutix Bostix, num exercício de hipocrisia aguda, até de HEROI E MESTRE o apelidou. Não que este não mereça, plenamente e por mérito próprio, aqueles qualificativos. Mas, não fica nada bem a quem em privado gratuitamente insulta vir, publicamente, elogiar com exuberância. Vícios privados, públicas virtudes…

Mas a suprema “bacoquice” ainda estava para vir!!!

Na sequência de uma vitória (jurídica) em confronto com os Romanos, Paranoidix vem sugerir, explicita, publicamente e sem qualquer decoro***, que se erga uma estátua ou se crie uma “estrela” ao estilo do passeio da fama “hollyodesco” à porta da sede do Palácio Romano, ao causídico Assassinix que, entretanto, fez apenas e só o que lhe competia e compete a qualquer mandatário judicial: ganho de causa. Ou será que o merecimento seria efectivo porque, na opinião de Caudilhix, a expectativa justa e razoável só poderia ser a da derrota?

À beira da insanidade global, perene e irreversível e à frente de uma aldeia onde a emigração se tornou regra e como tal na senda da desertificação inevitável, apesar de ter mudado o nome da aldeia numa tentativa infrutífera de inverter esse processo, o apalhaçado Mobutix vai resistindo mergulhado na sua própria baba, auto-exercitando a ridícula vanglória e o pendor patético das suas atitudes e alimentando uma postura absolutamente demencial e crescentemente esquizofrénica.


GRATIA MALORUM TAM INFIDA EST QUAM IPSI ****
[Plínio Moço, Epistulae 1.5.16]





O Cronix deste Reino

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* Não confundir com outra qualquer aldeia gaulesa onde, aí sim, pontificam verdadeiros heróis do imaginário colectivo.

** É insuportável a luz para a consciência culpada

** De registar, com alguma comoção, confesso, o facto de Bostix, indulgentemente, não se ter olvidado de Abelix nessa missiva. Bem-hajas Palermix, perdão(?!)… pois…

**** O favor dos maus é tão traiçoeiro quanto eles mesmos
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Abel Varandas
31 de Agosto de 2010

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