15 outubro 2013

The Walking Dead


Um dos pequenos prazeres pequeno-burgueses que me habituei a preservar é o de seguir séries televisivas interessantes.
Desde tenra idade e por pertencer a uma das famílias privilegiadas onde existia TV, que me deliciava com as aventuras do Bonanza, da Casa na Pradaria ou dos Vingadores e outros tantos que acompanharam a minha geração.
Uma das actuais séries que não perco é The Walking Dead na Fox.
Ontem teve início a 4ª temporada e lá estava eu a assistir ao primeiro episódio com a preciosa ajuda da útil "restart tv".

De repente, deparei comigo a pensar naquela sociedade virtual, na completa revolução que significaria passar a viver num universo dominado por estranhos seres mortos-vivos cujo único objectivo é a sobrevivência irracional em termos animais mais primários, traduzida num parasitismo antropofágico. No desmoronar de tudo o que sempre foi dado como adquirido, na inversão dos valores que nos habituámos a perfilhar na sociedade ocidental, dita desenvolvida, e a voltar a instintos primários, ao "salve-se quem puder", à lei da selva aplicada agora a um contexto urbano, tão bem retratados nesta e noutras séries de ficção científica.

De repente percebi que já sou mais actor nesse hipotético cenário do que mero espectador.
Que a virtualidade se materializa e a ficção dá lugar a uma realidade cada vez mais análoga.
Portugal, Outubro de 2013.
E há toda uma classe politico-dirigente que se perfila como bem mais perigosa do que a dos "mortos caminhantes" pelo simples facto de, para além da sua índole devoradora, deterem o poder.
O poder de nos dizimar.

E, sejam eles mortos, vivos ou mortos-vivos, nunca o slogan desta série me pareceu tão actual e oportuno:
Fight the Dead. Fear the Living
(Combater os Mortos. Temer os Vivos.)

JdP

2013.10.15

05 outubro 2013

VIVA A REPÚBLICA!




Durante 102 anos foi feriado.
Mesmo durante os 48 anos de ditadura do Estado Novo de Salazar e Caetano, nunca deixou de ser celebrado enquanto tal.
Hoje, pela primeira vez desde a Implantação da República, deixou de ser feriado nacional.
Porque um bando de energúmenos mentecaptos e esquizofrénicos de índole nazi-fascista que ocupa o poder em Portugal assim decidiu.
Não valorizam a República, do mesmo modo que não valorizam a democracia, o primado do Estado-de-Direito, ou, sequer, o simples bom-senso.


VIVA O 5 de Outubro de 1910!
VIVA A REPÚBLICA!

JdP

30 setembro 2013

O dia seguinte


Faço agora parte da imensa maioria de mais de 47% dos portugueses com capacidade eleitoral activa que não participa em palhaçadas travestidas de democracia.
E sinto-me...aliviado e de consciência tranquila.

O que mudou em Portugal de ontem para hoje? Alguns "galos" e alguns "poleiros".
O playground é o mesmo.
As mesmas decepções, a mesma pobreza, a mesma exploração, a mesma desigualdade, a mesma miséria.
E, como era mais que certo, a mesma classe política feita quase exclusivamente de oportunistas, "malabaristas" e ignóbeis parasitas.
E dos energúmenos que me obrigam de forma unilateral, prepotente e ditatorial, a partir de hoje, a permanecer nas instalações da entidade empregadora mais uma hora diariamente, voltando a reduzir-me o salário, a alegria e a motivação.

Do ponto de vista estritamente pessoal, resta-me a suprema consolação de que Deus, como sempre, não desistiu e não desistirá de mim.


JdP

2013.09.30

29 setembro 2013

DECLARAÇÃO DE NÃO VOTO



Democracia ("demo+kratos") é um regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), - in pt.wikipedia.org



O voto é considerado a maior “arma” de um regime democrático.
É a expressão da civilidade num contexto em que o povo é quem dirige, normalmente através de representantes, os destinos da polis.
Até aqui nada de novo.
Acontece que sendo o voto a expressão maior da democracia, o seu valor, a sua dignidade, a sua força pressupõe a existência efectiva de uma soberania e um regime democrático e das suas envolventes matriciais: liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, etc.

Desde meados de 2011 Portugal perdeu a sua soberania. E sem soberania também não há democracia.
Hoje somos aquilo que considero ser um protectorado feudal da União Europeia.
E a classe política que nos arrastou para este neo-feudalismo não quis saber da minha opinião, enquanto parte integrante da vox populis.
Para empenharem o nosso futuro e dos nossos filhos ninguém quis saber do nosso voto.
Alguém foi chamado a opinar se estaria de acordo com cortes nos salários, nas prestações sociais, nas reformas, nas pensões, no estado social, na saúde, na educação, na justiça, em todas as áreas onde o Estado deveria garantir o bem-estar dos cidadãos e, ainda,  em aumentos brutais na carga fiscal das famílias ou aumentos unilaterais nos tempos de trabalho?
Para “vender” o país aos interesses estrangeiros e às ditaduras dos mercados e da banca alguém quis saber o que eu pensava? Será que alguém sequer ponderou perguntar-me, quiçá em referendo, se eu, enquanto povo, supostamente detentor de um quinhão de soberania por mais pequeno que fosse, concordava com a "venda" da soberania nacional e com a perda de direitos civilizacionalmente conquistados em detrimento do contentamento dos “mercados” e do grande capital internacional?

Pois é.
"Borrifaram-se" para mim e para os meus concidadãos.
Mas agora lá vem eles todos “falinhas mansas” pedir o meu voto para perpetuar as benesses do “poleiro” que supostamente é um momento sacrificial pois blá-blá-blá que isto de fazer política é um sacrifício blá-blá-blá e eles gostam de sofrer e por isso, até, ao fim de tantos anos de sofrimento atroz (ou será atrás…?!) vão “sofrer” para outro lado a bem da res publica, blá-blá-blá… blá-blá-blá…blá-blá-blá

Basta! Não dou mais para este peditório!

Dizem-me que votar, mais que um direito, é um dever cívico.
Concordo. É assim em democracia e numa sociedade civilizada.
Lamentavelmente, dei-me conta que vivo hoje, não numa democracia ou Estado-de-Direito democrático mas, afinal, numa espécie de barbárie colonizada onde se assistem diariamente a retrocessos civilizacionais e a fenómenos de decadência axiológico-institucionais.

Pessoalmente, assumo o meu DEVER CÍVICO de deixar de participar activamente nesta “palhaçada”.
Contudo, porque sou visceralmente democrata, respeito o facto de que haverá sempre quem o fará e até com gosto.


Bom proveito.



JdP
29 de Setembro de 2013

07 setembro 2013

Ave da Esperança - Miguel Torga



Ave da Esperança

Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
Aquece as alegrias do futuro,
O tempo que há-de vir sem este muro
De silêncio e negrura
A cercá-lo de medo e de espessura
Maciça e tumular;
O tempo que há-de vir - esse desejo
Com asas, primavera e liberdade;
Tempo que ninguém há-de
Corromper
Com palavras de amor, que são a morte
Antes de se morrer.



MIGUEL TORGA


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